AS MARGENS DA PALAVRA E OS NOSSOS CINCO SENTIDOS

Publicado por Leonardo de Sousa Lima em


AS MARGENS DA PALAVRA E OS NOSSOS CINCO SENTIDOS

João Maria André

 

Falar ou escrever é sempre evocar e traduzir o poder da palavra. Porque é sempre o poder da palavra que nas nossas palavras se diz. É o poder da palavra que nos nossos gestos se inscreve e em nós se faz corpo com o corpo do mundo. Se “no princípio era a palavra”, como diz o Evangelho de João, um dos textos fundadores do amor na tradição ocidental, essa palavra que era, no princípio, é também, de acordo com o mesmo Evangelho, uma palavra que se fez carne na Babel de línguas em que a nossa identidade se viu e se vê fragmentada.

Quando o Fausto de Goethe tentou traduzir este primeiro versículo de João, passou pela tentação de o reformular na seguinte afirmação: “no princípio era o pensamento”. Mas depressa se apercebeu de que, mais do que o pensamento, o espírito ou o sentido, era antes a acção que traduzia a força da palavra, abandonando, por isso, aquela primeira equivalência.

Marcados, talvez, pelo dualismo entre corpo e alma e pela necessidade de estabelecer a correspondência que esse dualismo postula, habituámo-nos demasiado a pensar a palavra como instrumento do pensamento E, mesmo ao operar a distinção entre significante e significado, facilmente se insinuou nessa distinção o primado do significado na definição do significante. Como se este fosse o leito de um rio a dar forma às evoluções significativas dos conceitos que nele corriam. E, ao mesmo tempo que se privilegiava o pensamento veiculado pela palavra, elegia-se o espírito como seu interlocutor e seu mais dignificado intérprete.

Contra essa corrente e o movimento que ela desenha no relevo que a configura, gostaria agora de convocar as margens da palavra e os cinco sentidos em que o aceno dessas margens em nós se afirma na materialidade e na corporeidade do seu gesto. Não como filósofo da palavra, que não sou, mas na qualidade de artesão da palavra como todos, de algum modo, pretendemos ser.

Resgatando as margens da palavra e os cinco sentidos em que as recebemos, invocaria, em primeiro lugar, o sabor da palavra. Porque, afinal, as palavras têm sabor e é saboreando-as que as sentimos na sua força e no seu poder. Há palavras doces e palavras amargas, para além da doçura ou do amargor das coisas que nas palavras se dizem. Como há palavras com mais ou menos sal, mais ou menos picantes, apetitosas, apaladadas. Talvez por isso, orquestrar as palavras na escrita ou no discurso seja um pouco como cozinhar: fazer uma alquimia dos sabores. É doce a palavra romã, mesmo quando a romã não é doce, como é doce a palavra jasmim, a palavra nardo ou a palavra lua. Menos doce será talvez a palavra livro, ou a palavra régua, ou até a palavra número. Mas mesmo o que é menos doce pode ser doce consoante a sua composição. E como nem todos têm o mesmo gosto, nem todos sentem a doçura ou o sal das palavras do mesmo jeito. Mas todos lhes sentem, decerto, algum sabor.

Gostaria, depois, de invocar os contornos das palavras, a sua cor, as suas formas, a beleza do seu rosto, a geometria do seu desenho. Quantas vezes a beleza de uma frase não depende da elegância das palavras que a constituem e do desenho que com elas se faz?... Quantas vezes o seu equilíbrio não resulta da proporção que se estabelece entre um conjunto de palavras circulares, como a palavra bom ou a palavra paz, e um conjunto de palavras triangulares, como a palavra rio ou a palavra música?... As pala­vras que vemos são actores que entram em cena no teatro do discurso e, tal como os actores se movimentam, também as palavras evoluem e compõem figuras no seu palco que é o palco formado pelo corpo de quem as diz: é o teatro das palavras que mostra, mesmo sem os nomear, o drama ou a comédia do mundo e da vida. E quantas vezes ainda se não pintam os textos com a paleta de cores que as palavras nos oferecem?... Uma palavra que se vê não é pois, apenas e só, uma palavra que se lê, mas, também e ao mesmo tempo, uma palavra que se desenha por detrás do desenho que fazem as suas letras.

Mas para além do sabor e da forma, as palavras têm também o seu aroma, o seu perfume. Ora mais intenso, ora mais suave. Ora mais puro, ora mais poluído. Como há também palavras que enjoam e outras palavras que inebriam. E se a água pura não tem cheiro, a palavra água pode ter o cheiro que a água não tem. Como a palavra linho ou a palavra areia. Do mesmo modo, a palavra pão pode não cheirar a pão e a palavra pomba pode ter o perfume da rosa e a rosa o perfume da pomba. As essências das palavras não são as essências dos conceitos e a procura de uma palavra perdida pode ser a procura do seu perfume nos frascos em que se decanta a sua memória.

Mas as margens das palavras são também o seu corpo. A sua pele. O que delas se oferece ao nosso toque e ao nosso tacto. Sentimos as palavras nos dedos e há palavras que nos marcam o rosto como um ferro em brasa ou como a brisa ligeira com o sal da maresia. Algumas palavras poderão ser ásperas e rugosas, como a palavra terreno ou a palavra carregar. Outras macias ou aveludadas, como alvor, luar ou mesmo sussurro. Algumas, apesar das arestas, tocam-nos tão de leve como uma pena: é o caso de rumor. Outras, embora lisas, não têm a doçura daquelas que lhes são mais próximas, como acontece com espera em relação a esperança. É na pele das palavras que nos encontramos com elas e é também por essa pele que elas respiram, para que com elas respiremos. Tocar as palavras é saber a sua textura, sentir as suas carícias, amá-las no seu desejo. É, por vezes, despi-las na sua nudez, ou vesti-las com o linho, a seda ou o veludo das nossas metáforas.

E que dizer do que das palavras nos chega através do ouvido? São música, harmonia, magia de sons as palavras em que nos dizemos. Mas também podem ser ruído, desconcerto, desatino. Falar é como encenar a dança das palavras, no seu ritmo, no seu compasso, na medida ponderada do peso dos seus sons, ou no jeito descompassado do seu correr esfuziante. Têm tempos e contratempos as palavras. E têm andamentos diferentes nos diferentes andamentos em que as compomos e em que nelas recompomos o andamento do nosso corpo: por vezes andante, por vezes adagio, outras allegro e também allegro ma non tropo. Em certos momentos não somos nós que dizemos as palavras, mas as palavras que se dizem em nós como se fossem sons de uma flauta ou acordes de um violino que se soltassem no ar entoando o seu hino à alegria e a sua ode à libertação.

As palavras habitam-nos os cinco sentidos. Através do seu corpo e das suas margens. E, assim, também, através da sua memória. Porque a margem das palavras é ainda a sua memória. Memória de alegria e memória de dor. Da escrita de vencedores e da escrita de vencidos. Nas palavras dos heróis e nas palavras das vítimas. Essa margem é o peso da sua história. Que se articula com a nossa memória e com o peso da nossa memória mas que se não reduz a ela, porque a palavra não é egocêntrica, nem antropocêntrica, nem etnocêntrica. A dança das palavras é um movimento contínuo de descentração nos gestos fragmentários em que elas se constituem. Saber as palavras é também saber as múltiplas memórias que as palavras transportam na eternidade efémera do seu fulgor.

As margens das palavras passam, pois, pelo corpo que nelas se prefigura. Mas, talvez mais do que o corpo ou os corpos que invocámos, a margem, por excelência, da palavra é o silêncio. Porque o silêncio não é a negação da palavra: é a luz que lhe dá cor, o ar que respira, o horizonte em que se desenha, o fundo de que emerge a sua música, o espaço da sua criação. É no silêncio que as palavras têm nome, porque é no silêncio que as palavras se geram e é para o silêncio que elas confluem, como é no silêncio que se fecundam e multiplicam. Falar “em nome da palavra” é falar em nome do silêncio e invocar o poder da palavra é invocar o poder do silêncio. Só no silêncio se acende o brilho da palavra, mas também só a palavra pode dizer, sem a dizer, a infinita plenitude do silêncio.

 


 


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