A Utilidade do Inútil

Publicado por Paulo Ferreira em

In A UTILIDADE DO INÚTIL

Nuccio Ordine, 2013

"Mas infelizmente a onda de catástrofes não se fica por aqui. Até a identidade das livrarias foi desfigurada pelas exigências mercantis. De lugares históricos de encontros que eram, onde era possível encontrar sempre textos e ensaios de fundamental importância, hoje tomaram-se caixas de ressonância de obras que estão na moda, cujo sucesso é comparável a fogos de palha. Se, por um lado, é impossível esquecer, em Paris, a PUF, perto da Sorbonne, ou a mítica Divan, em Saint Germain (cujas instalações, usadas ao longo de décadas para outras actividades comerciais mais lucrativas, só há poucos meses foram devolvidas aos livros, graças à transferência de La Hune), por outro lado é igualmente impossível ignorar a transformação operada em livrarias que, a pouco e pouco, foram eliminando a erudição e reduzindo consideravelmente a presença dos clássicos (veja-se a cadeia da FNAC), para dar espaço amplo nas estantes a livros acabados de sair e apoiados pelo sucesso mediático. A mesma coisa se pode dizer da Itália. Muitas livrarias históricas estão a desaparecer (veja-se, por exemplo, a cidade de Nápoles, onde o encerramento da Treves suscitou reacções de protesto), enquanto as grandes cadeias de vendas são levadas a adaptar-se à lógica do mercado.

Poucas são as ilhas de resistência (Vrin, La Compagnie, Les Belles Lettres e La Procure, em Paris, ou Tombolini em Roma e Hoepli em Milão) em que o leitor pode ainda encontrar os textos essenciais quase sempre disponíveis. Os próprios livreiros, com algumas raras excepções, já não são os de outrora, capazes de dar aos leitores sugestões preciosas acerca de um romance ou de um ensaio. A sua liberdade de escolha é hoje limitada pelos interesses dos grandes distribuidores que, impondo as suas publicações de acordo com critérios puramente comerciais, não consideram a qualidade um valor essencial. Libertos de responsabilidades, os livreiros transformam-se em simples empregados, cuja tarefa principal é vender produtos com o mesmo espírito de quem trabalha num anónimo supermercado."


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