DITOS BURRIQUITOS

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FERREIRA (Paulo Gaspar).— DITOS BURRIQUITOS. Adágios, rifãos, provérbios, historietas, anexins, chufas, motejos, dichotes, remoques e outros pensamentos burriquentos recolhidos por... entre alfarrábios, sábios e outros entes conhecedores da dita matéria asinina. Segunda edição colaborada em mirandês por Amadeu Ferreira e ilustrada por Diogo Goes. (In-Libris. 2012). 13x19 cm. 118-VIII págs. B.

“Quando iniciei este trabalho não imaginava que a palavra “burro” era uma fraude. Sempre a tinha entendido como aquela que representava o animal que fazia parte da minha família afectiva. Para mim, sempre tinha sido o corajoso companheiro que arribava montanhas, comigo em cima, lá para as bandas de Carviçais, quando, no meu tempo de férias (quando o tempo era de férias, mas das grandes), acordava lá por volta das 2 ou 3 da manhã para ir com o Tio Antoninho a regar a horta.
Trinta e tal anos depois, percebo que a palavra “burro”, apesar de ir contra a opinião de linguistas e dicionaristas (que quase sempre a classificam como substantivo masculino) não é substantivo não senhor: “burro” é, essencialmente, adjectivo. Quer quase sempre chamar a atenção para algum atributo, menos lisonjeiro, de alguém. Serve-nos acima de tudo como argumento para agredirmos, achincalharmos, menosprezarmos algum dos nossos congéneres.(...)”
Ilustrado com desenhos de Diogo Goes feitos especialmente para esta edição..
No final, “O burro nos ditos dezideiros e na tradição oral mirandesa” da autoria de Amadeu Ferreira. 

Diz, também, o autor: "Isto que agora é livro quero antes que seja colheita, que seja entendido como safra sementeira, matriz de uma maior e mais profunda busca.

Nasceu de uma paixão, claro... mas nem por isso menos consistente. A ideia chegou abrupta com a Espiga e o Ouriço, dois burricos que passaram a acompanhar-me sempre que tento trabalhar a horta à minha feição. “Pra trás mija a burra” lembrava eu as palavras da avó Emília que, até ali,  tinham continuado envoltas no terno mistério das palavras das avós que já perdemos. A espiga acabava de me demonstrar a pura verdade destas doces palavras. “A pensar morreu um burro” juntava-se à festa sem eu dar conta do cerco. “Um burro carregado de livros é um doutor” lembrava-me um burrico de barro com as alforjas cheias de livros que o meu pai tinha encomendado a um oleiro da minha infância que, para mim valia, naquele (meu) tempo, apenas pelo facto de “viver” numa azenha com uma imensa roda que teimava em acompanhar o movimento perpétuo da água na corrida desenfreada para ir a encher o mar.

José Franco, o pai quase venerava este ainda desconhecido amassador de terras gredas.

Depois começaram a chegar em catadupa uma série de falas que o povo diz e que traduzem ideias construídas neste “personagem”: “Andar de cavalo para burro”; “Quando um burro zurra, os outros abaixam as orelhas”; “Um olho no burro, outro no cigano”.

A curiosidade provocada pela quantidade de coisas que o povo diz sobre este animal levou-me à busca activa e ao assombro pelo património etno-linguístico dispensado aos burros. Fábulas, histórias, anedotas, adivinhas e tantos outros pensamentos “burriquentos”...

A diversidade e a dificuldade em encontrar as fontes que, muitas vezes, não são explícitas levou-me a optar por apenas mencionar no final as obras (em livro) consultadas. No entanto as fontes são mais vastas, a busca com recurso à internet muitas vezes me levou a locais não referenciados bem como a conversa com pessoas sabedoras da cultura do povo me deram pistas e ideias dificilmente referenciáveis.

Gostaria de entender este trabalho como princípio uma vez que, pelas suas próprias características nunca terá um fim. A continuação dependerá agora de quantos o quiserem aumentar com ensinamentos e sugestões que o venham a melhorar.