Farpas (AS) — Eça de Queirós & Ramalho Ortigão

21518-B1
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ORTIGÃO (Ramalho) & QUEIROZ (Eça de).— AS FARPAS. Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes. Lisboa. Typographia Universal... 1871-1883. 42 números em 10 vols. 11x15 cm. E.

“Leitor de bom senso — que abres curiosamente a primeira pagina d’este livrinho, sabe, leitor — celibatario ou casado, proprietario ou productor, conservador ou revolucionario, velho patuleia ou legitimista hostil — que foi para ti, que elle foi escripto — se tens bom senso! E a idéa de te dar assim todos os mezes, emquanto quizeres, cem paginas ironicas, alegres, mordentes, justas, nasceu no dia em que podemos descobrir atravez da penumbra confusa dos factos, alguns contornos do perfil do nosso tempo. Aproxima-te um pouco de nós, e vê. O paiz perdeu a intelligencia e a consciencia moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciencias em debandada, os caracteres corrompidos. A pratica da vida tem como unica direcção a conveniencia (...) N’esta jornada, longa ou curta, vamos sós. Não levamos bandeira, nem clarim. Pelo caminho não leremos a Nação, nem o Almanach das Cacholetas. Vamos conversando um pouco, rindo muito. Somos dois simples sapadores ás ordens do senso commum. Por ora no alto da collina aparecemos só nós. O grosso do exercito vem atraz. Chama-se a justiça (...)”


“A sociedade portugueza n’este derradeiro quarteirão do seculo pode em rigor definir-se do seguinte modo: — Ajuntamento fortuito de quatro milhões d’egoismos explorando-se mutuamente e aborrecendo-se em commum. Chamar patria á porção de territorio em que uma tal aggregação se encontra seria abusar reprehensivelmente do direito que cada um tem de ser metaphorico. (...) para que haja uma patria portugueza, é preciso que exista uma ideia portugueza, vinculo da cohesão intellectual e da cohesão moral que constitui a nacionalidade de um povo. Sabem dizer-nos se viram para ahí esta ideia?... Nós temo-la procurado de aventura em aventura, de jornada em jornada, n’uma peregrinação de vinte annos atravez d’esta sociedade, como Ulysses, vagabundo atravez da Odyssea, em busca do fumosinho tenue e amigo que adeje no horisonte por cima da primeira cabana d’Ithaca. As manifestações culminantes da mentalidade collectiva de um povo são: a Religião, a Politica, a Moral, a Arte. Vejamos rapidamente se em alguma d’estas espheras da nossa elaboração mental se revela a unidade de pensamento por meio da qual se affirme a existencia de uma nação (...)”

Publicação periódica particularmente interessada e procurada pela vertente crítica aos costumes e política da época.

Na época,  e mencionando apenas alguns exemplos, causaram imensas polémicas, dando origem a artigos de jornal. Alguns intervenientes, talvez o mais atento e incomodado, foi Pinheiro Chagas, que tentava a ironia para atacar Eça de Queiroz. Publicou pelo menos quatro artigos, no Diário de Notícias. Mas não foi o único. O Diário Popular, o periódico fundado por Mariano de Carvalho, e  O Partido Constituinte (dominado por J. Dias Ferreira) fizeram inúmeras referências aos opúsculos; O primeiro tecia elogios à graça e bom senso que estes revelavam; o segundo ia mais longe e louvava-lhe o objectivo de criticar o desregramento da época elogiando igualmente a sua originalidade. Uma das críticas mais violentas veio de um parlamentar, J. M. Vieira de Castro, que sob o pseudónimo de Samuel, tentou destruir Eça. Outro, talvez a polémica mais dura foi a que se travou entre Eça e António Enes.

De referir ainda que, no último volume, vem encadernado conjuntamente a obra: DUAS PALAVRAS AOS LEITORES DAS FARPAS. De Dezembro de 1872, por UM BRAZILEIRO. Lisboa. Typographia Sousa & Filho. 1873. 88 págs. O autor começa desta forma este opúsculo: “ Não sabemos o que tem movido o sr. Ramalho Ortigão, distincto redactor das ‘Farpas’ a fazer do Brazil uma continua guerra, procurando, quanto em suas valiosas forças caiba, tornal-o ridiculo e apresental-o aos seus leitores como uma terra de escravos e botocudos, onde a civilisação ainda não penetrou, em que não ha commercio — a não ser o do café — nem industria e vida intellectual!...(...)”

Bem encadernados, com lombada e cantos em pele. Todos os volumes preservam as capas da brochura dos respectivo primeiro fascículo. Carminados à cabeça preservando restantes margens por aparar.

PEÇA DE COLECÇÃO.